sexta-feira, 6 de março de 2009

Eu não sou...


Eu não sou uma cria de Rinoceronte Preto. Não tenho perto de 3 anos. Eu não meço 1,5 m de altura por 2 m de comprimento, nem tenho patas dianteiras com 40cm de circunferência. Não tenho 100 kg de peso. Não fui morto em 1954, junto ao rio Luengué, Mucusso, Kuando-Kubango, Angola. Eu não fui caçado por J. Fenyoki, um engenheiro húngaro e empresário em Madrid, caçador de animais de grande porte que tinha uma fazenda de 2,000 acres em Angola. Eu não fui empalhado em Nairobi, que recebia encomendas para empalhar animais da Europa e dos EUA . Eu não fui enviado de Angola nem de Moçambique, já montado, na proa de um navio dentro de um caixote de madeira feito à medida, que continha cartão canelado como protecção contra choques. Nem o caixote tinha a palavra FRÁGIL a vermelho. Eu não estive em exposição com outro rinoceronte fêmea, que não é a minha mãe, num museu que exibia plantas e sementes. Eu não fui um presente de casamento como o elefante que tocava o sino no Zoológico de Lisboa. Eu não posso ser comprado como uma girafa, empalhada, por 60.000 dólares americanos via NET. Eu não passei 30 anos virado para azulejos azuis e amarelos. Eu não sou feito de gesso e madeira. Eu não sou um exemplar representativo de uma espécie. Eu não sou um objecto nem de luxo nem de nostalgia. Eu não sou um objecto. Eu não sou um troféu. Eu não sou um simulacro de um rinoceronte negro.

Fotografia 40x60
Lisboa 2009
Henrique Neves e Clément Darrasse
Pós-produção digital : Cyril Masson

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